O que estamos pedindo?

Até pouco tempo eu trabalhava em uma loja dessas que vende móveis, eletrodomésticos, eletrônicos entre tantas outras coisas também. Logo na entrada da loja havia um painel enorme do chão ao teto onde ficavam expostos os modelos de TV à venda, geralmente ligadas para chamar atenção do cliente. E na maior parte do tempo chamava a nossa atenção, ou pelo menos a minha.

Muitas vezes eu estive na entrada dessa loja, em tardes de fluxo fraco esperando a hora passar, olhando o movimento na rua ou esperando um cliente entrar e ao meu lado em uma dessas TVs passava um jornal e nesse jornal todas as tardes eu ouvia uma chamada diferente mas sempre igual que falava de uma mulher X que foi morta pelo marido/namorado/noivo Y. Dia após dia a mesma chamada, sempre com personagens diferentes, só a vítima era a mesma: uma mulher.

E eu comecei a pensar como isso é absurdo e revoltante. Como isso é tão errado, mais errado ainda por ser tão normal. Normal a ponto de não chamar mais a atenção ou ser chocante para as pessoas, a ponto de fazerem piadinhas do tipo “vamos ver quem matou quem agora”, era algo bem comum de se ouvir, normal a ponto de preferirem desligar a TV com as notícias chatas e repetitivas e no lugar ligar um som, “vamos esquecer desses inconvenientes da vida!”.

Mas a real é que essa mulher poderia ser eu. Poderia ser a minha namorada Ana, poderia ter sido minha mãe ou a minha irmã. Poderia ser você que está lendo esse texto agora. Afinal, o que nos separa, o que é que nos deixa tão segura e longe dessa realidade que nos acompanha todos os dias da nossa vida enquanto mulher?

Se eu tivesse nascido em outro lugar, se eu tivesse uma criação diferente, se a minha vida tivesse cruzado com uma pessoa (dá para chamar de pessoa?) que se achasse dona de mim, o que aconteceria se um dia alguém sorrisse para mim na rua? Se eu demorasse tempo demais fora de casa? Se eu não quisesse “dar” uma noite dessas?

Tem gente que fala que coisas ruins não acontecem com quem é direito, com quem reza antes de dormir, com quem não anda sozinho na rua a noite, tem gente que acredita e defende que coisas ruins não acontecem com pessoas direitas e que essas mulheres na verdade procuraram esse fim.  Essa justificava é fraca demais, rala, sem base nenhuma e chega dar vergonha de quem acredita nisso.

Porque ninguém escolhe ter uma vida difícil, ninguém gosta de sofrer de graça e não adianta me falar que o sol é para todos quando vivemos em um país com tanta desigualdade, com tanta sujeira, com tantas visões retrógadas. Quando vivemos em um dos cinco piores países para ser mulher! Onde é ok uma mulher ser violentada, espancada e morta porque nunca estudou, porque engravidou jovem, porque nunca trabalhou, porque não era ninguém. Ele matou porque foi traído, ele matou porque ficou com ciúmes, ele matou porque estava passando por um momento difícil.

Vivemos em uma sociedade machista sim, que tenta justificar os erros de um homem diante dos problemas que ele esteja vivendo, enquanto tenta culpar a mulher pelo tamanho da sua saia. Duvido existir uma pessoa que nunca ouviu o famoso: Ela pediu.

Ninguém pede para ser humilhado, ninguém pede para ser desrespeitado, ninguém pede para ser estuprada. Ninguém aqui está achando legal ser espancada porque tem alguém com problemas ou passando por uma fase difícil e não aguentou o ciúme. Acho que precisamos falar mais alto, nenhuma mulher quer morrer hoje. E é isso que acontece no Brasil onde todos os dias 13 mulheres são mortas.

E a única coisa que estamos pedindo, pedindo de verdade é pelo nosso direito a igualdade. E não confunda igualdade com querer que uma mulher reboque a parede da sua casa já que homem faz isso, seu pensamento está pequeno demais, porque igualdade tem mais a ver com poder caminhar na rua não importa a hora ou lugar e não sentir medo só por ser uma mulher. Da mesma forma que nenhum homem tem medo de ir e vir por ser homem! Pense nisso.

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Uma segunda-feira qualquer

É uma segunda-feira como qualquer outra, e eu aqui sentada a mesa escrevendo enquanto bebo uma xícara de café fresquinho que a Ana fez. Revezando entre tratar algumas fotos e fazer as unhas, haha! Porque sou dessas. Enquanto lá fora o dia promete um calorão daqueles…

Acabo pensando que há seis meses atrás começava a primavera, estávamos perdidas entre uma quantidade absurda de caixas por todos os lados, havíamos acabado de nos mudar para cá, nosso cantinho, escolha das duas, lar de quatro gatas e um cachorro. Parece pouco tempo e é, mas tanta coisa já mudou!

Se eu voltar mais um pouquinho a fita, lá em fevereiro do ano passado quando nos encontramos a ficha caiu na hora, já sabíamos que o que encontramos uma na outra era exatamente o que tanto nos faltava… E o engraçado é que no fundo, não parece que um ano já se passou, parece que foi ontem que ela me mandou aquele Oi, parece que foi ontem que a gente marcou aquele café e parece que foi ontem que eu quis ser só dela, de corpo e alma.

E mesmo com tanta coisa acontecendo sempre e as mudanças que são constantes ou o relógio que não pausa por um momento o seu tic-tac, fica a certeza de que a cada dia eu a amo e admiro mais. E mesmo que daqui a seis meses talvez eu não esteja em casa em uma segunda-feira como essa, escrevendo um texto e bebendo meu café, mesmo que talvez tenhamos nos mudado daqui para outro lugar, mesmo que ela tenha raspado o cabelo e eu entrado para uma seita de adoradores de café…

Mesmo assim, a minha segurança, a minha certeza é ela e o nosso amor é o meu porto seguro para onde eu sempre quero voltar depois da tempestade. E isso me basta para ser feliz.

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Hoje eu não me importo com o que não importa!

Por muito tempo eu tive medo, não do que as pessoas iriam pensar, não do que elas falariam, mas sim de sofrer por ter uma vida diferente do que a sociedade impõem… Medo de sair da caixinha que somos educadas e pressionadas a ficar, medo de ser agredida ou violentada, de perder meus direitos e o respeito que mereço como qualquer mulher, ou até mesmo de acharem que não seria uma boa pessoa pela minha opção sexual.

Acreditava a ponto de não publicar fotos com a minha namorada em modo público com medo que pessoas que não me conhecem fizessem um pré julgamento até do meu trabalho, e um dia eu falei isso para a Elis, e foi aí que ela mais uma vez me falou algo que me fez acordar para a vida…

E você? Quer fotografar alguém que acha que você é uma má pessoa só porque é homossexual? Quer fotografar alguém preconceituoso e antiquado que pensa que você vai para o inferno por não viver conforme a sociedade julga correto? Quer fotografar alguém que acha que você não tem o mesmo direito a vida como ele tem porque você vive com outra mulher? a minha resposta foi não!

Não quero fotografar alguém se não for de uma vibe boa como a nossa, não quero fotografar alguém que não viva o amor pela sua família e pela sua própria felicidade, não quero fotografar alguém que se preocupa mais com quem eu durmo do que com a bondade que levo no coração, não quero fotografar alguém que está mais preocupado em julgar a vida do próximo do que viver em harmonia sua própria vida e escolhas…

Então hoje posto várias fotos que fiz com a parceira que escolhi para mim e que vem me ajudando a perder o medo, que vem contribuindo para que eu seja a cada dia um novo ser, mais resolvido e de bem comigo mesma. Minhas fotos mudaram muito de um ano para cá, isso vem refletindo muito na nova pessoa que venho me tornando também… O medo continua aqui, um pucadinho menor, assim como você minha educação foi dentro da caixa, mas tento a cada dia melhorar a forma que vejo o mundo do outro.

Afinal por muito tempo aceitei que eu tinha mesmo que abaixar a cabeça e acho que todo mundo recebeu essa mesma educação que nos engessa dentro de uma forma que não foi feita para nós… Hoje mais que nunca me pergunto quem foi que fez um mundo inteiro se dividir e preferir o ódio ao amor!

Então espero querido novo cliente que você me contrate somente se me vê como a profissional competente que sou, e que se você for cheios de julgamentos e dedos apontados ache alguém da mesma vibe que você!

Mas se você vier pelo meu trabalho, vai ver que do lado de cá, não tem julgamento nem maldade, só a vontade de tornar tudo mais bonito com muito carinho e amor!

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Sobre o nosso ano

Estamos a caminho para a casa da minha mãe, estamos no bus agora e a Elis está dormindo com a cabeça no meu ombro. Hoje fez um calor de matar em Blumenau e chegar em Floripa com essa chuvinha é simplesmente uma benção.

Olhando pela janela me veio à cabeça que é o primeiro natal com ela, o primeiro começo de ano também, nós passamos por tantas coisas nesses últimos meses que é difícil acredita. Em 2016 terminamos nossos antigos relacionamentos, eu saí do meu completamente endividada e a Elis não saiu muito diferente…

Lembro que quando começamos a namorar  eu disse para ela que não tinha nada a oferecer, tinha saído da minha antiga vida sem casa, sem carro, sem móveis, eu e com meu cachorro apenas, mas com bastante contas para pagar. Ela disse que não se preocupava com nada disso, não importava porque juntas resolveríamos tudo!

 

Eu por minha vez já fazia mil contas na cabeça e deduzia que para por a casa em ordem ia levar uns bons três anos. Em 2016 nós não fizemos grandes viagens, não jogamos aquele jogo cliché de tentar impressionar o outro com cifrões, não fizemos aviõezinhos de dinheiro na companhia do Silvio Santos, mas aproveitamos todas as coisas boas que nos cercam, as simples, as que importam e valem a pena.

Sempre perto de nossa família e amigos, perto daqueles que realmente se importavam e torciam pela gente. Passamos longe de toda e qualquer negatividade. E com muito esforço e trabalho duro colocamos todas as nossas contas em dia, em um ano!

E hoje eu sei, nada nesse mundo paga o preço de ter saúde, ter as coisas em ordem, estar de bem com sua família, ter alguém te esperando em casa com aquele café no ponto, sabe?

Alcançamos a nossa primeira meta, temos uma câmera e uma lente novinhas e a Elis já pode fotografar comigo, agora ela não é somente a minha leal namorada, mas também minha aprendiz de fotógrafa dedicada! Como é bom encontrar o seu porto seguro na pessoa que caminha ao teu lado.

Pensando em todas essas coisas, dá para ver que 2016 foi um ano bom. Foi um ano de renascer, de se perder e também de se encontrar, de ouvir e aprender e saber com quem no fim a gente pode contar. É preciso ter gratidão por estar onde se está, não são os caminhos que nos levam, somos nós e a nossa fé na jornada.

Que nesse ano novo a gente se programe para organizar mais ainda nossas vidas juntas, e alcançar tantos outros sonhos que temos e tantos outros que ainda vão surgir! Que não falte amigos ao nosso lado, que não falte aventuras para viver e histórias para contar, porque amor sempre vai ter de sobra.

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Dividindo a cozinha com ela

A Elis não sabia cozinhar nada. Ok, ela sabia fazer miojo instantâneo, mas isso não conta exatamente como experiência culinária, né? Eu da minha parte, que aprendi a cozinhar com o meu pai ainda criança, nunca a forcei a aprender, mas achei fofo quando ela se demonstrou interessada em me ajudar na cozinha enquanto eu preparava nossas refeições.

Ela já lavava a louça e arrumava toda a bagunça que eu fazia cozinhando, mas ver ela ali do meu lado fazendo algo simples, às vezes preparando a salada ou mesmo descascando uma batata me animava muito, pela simples parceria que rolava na cozinha. Sabe, sou daquele tipo de pessoa que acha um barato cozinharmos juntas.

A Elis é estabanada por natureza, não sabe nem a quantidade de sal que deve colocar no arroz, mas sorridente ela tenta aprender tudo e eu fico feliz com isso, penso que se um dia não estiver mais por aqui para fazer a janta dela, ela se vira sozinha, sobrevive nessa selva de temperos!

Essa semana ela chegou na sala enquanto eu trabalhava e falou: Hoje eu vou fazer a comida. E fez, ela fez toda a janta sozinha, legumes assados com carne e com direito a ensopadinho de vagem! Fiquei pasma, muito mais pasma porque ficou ótimo! Minha mulher já se vira sozinha…

E saber que participei desse processo sem forçar ou ser chata me deixa orgulhosa. Ela teve vontade de cozinhar pelo fato de dividir a cozinha comigo e assim passavámos mais tempo juntas, ao invés de esperar no sofá assistindo uma série como eu sempre insistia que ela fizesse, mas ela é teimosa.

Essas coisinhas bobas do dia-a-dia fazem uma diferença enorme em um relacionamento, vocês não fazem ideia! Se quiser uma dica pra uma relação saudável, aí vai: Ajude, aprenda e divida sempre. Mas não porque o outro está pedindo, e sim porque você ama e quando a gente ama estar perto e ver o outro bem é que nos move, o que nos faz melhor!

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O girassol na livraria

Se eu tivesse de usar momentos para mostrar o porque de eu amar tanto a Ana, esse seria o primeiro deles. Eu estava dentro de uma livraria, um dos meus lugares preferidos no mundo, esperando ela voltar. A gente tinha tomado um café em uma mesinha pequena daquela de dois lugares, um dos nossos primeiros de tantos cafés, onde sempre conversávamos sobre tudo! Depois ela me pediu um minuto, disse que eu podia esperar ela ali na livraria…

Acabei me distraindo entre os lançamentos do Stephen King e não vi quando ela entrou pela porta. Ela me viu antes. E quando me virei sem motivo naquela direção, vi ela caminhando ao meu encontro com um girassol na mão. A minha flor! (Por causa dela.) Só de lembrar consigo reviver aquele momento, mil vezes e sempre me sinto do mesmo jeito.

Sorriso bobo, sem acreditar, me escondi com o meu girassol no abraço dela. Ela com aquele sorriso que eu já não poderia viver sem. Não estava acostumada com essas pequenas declarações de amor diárias que a gente tanto precisa sem saber, que confirmam as verdades que vem do fundo da alma sobre estarmos no lugar certo do jeitinho que somos.

Duas atendentes que estavam ali perto se emocionaram junto e não esconderam de ninguém como acharam tudo aquilo muito fofo! Escolhi o meu livro e saímos da livraria de mãos dadas, aquele dia o meu coração já era dela.

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Sobre me encontrar nela

A Elis foi um encontro inusitado. Eu já tinha vivido muita coisa quando conheci ela e não esperava viver um grande amor, nem mesmo acreditava que poderia encontrar alguém como ela. Veja bem, não estou querendo dizer que vivo um relacionamento perfeito ou que ela é perfeita, mas sim que pela primeira vez vivo aquilo que esperava de uma relação amorosa.

Somos o tipo de casal daqueles que eu sempre admirei, quando nos olhamos a gente sabe o que estamos pensando e quase sempre é: ‘Meu Deus ela é minha’, e não é aquele minha de posse ou de propriedade que ninguém pode encostar, é aquele minha de que ela poderia ter quem quisesse ter no mundo e ela me escolheu.

E quando encontro aqueles olhos castanhos olhando diretamente para os meus, o único pensamento que passa pela minha cabeça é; como consegui viver tanto tempo sem essa menina? E  a resposta que surge é que eu precisava viver tudo que eu vivi para então ser capaz de valorizar esse momento, porque ela me faz gostar da pessoa que sou, ela me faz querer ser melhor todos os dias, e mesmo quando a gente briga eu tenho que me segurar para não rir ou para não abraçá-la, porque eu sou tão boba que não acredito que tenho ela para brigar! Pode isso, gostar até das brigas com ela?

Sabe amor, eu sei que faz pouco tempo que existe esse nós, e todo mundo sabe que todo começo é maravilhoso e tudo termina em sexo, mas eu já tenho idade suficiente pra saber que nunca foi assim antes e que eu jamais vivi isso com alguém. Por mais que tivemos relacionamentos bacanas antes, nenhum nunca preencheu tantos espaços vazios como você preenche…

E eu posso estar sendo uma boba apaixonada, mas eu sei que o que eu sinto não é mais só paixão, o que eu sinto por você é aquilo que chamam de achar sua alma gêmea, hoje eu sei que você é minha metade. Porque como diz a Paula Toller os outros ficaram sempre sendo os outros e nada mais, depois de você!

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