O meu “me assumi”

De vez em quando alguém me pergunta como me “descobri” lésbica ou se eu sempre soube e como foi me assumir e me aceitar do jeitinho que sou. A essa altura eu já poderia ter uma resposta padrão, mas não é assim que acontece… Na verdade acho muito fácil e ao mesmo tempo difícil falar sobre isso. Acredito que o entendimento depende mais de quem escuta do que de quem conta uma história.

Eu cresci em uma cidade pequena, morava no interior do interior de Timbó! Fui criada somente pela minha mãe com os meus dois irmãos, entre tios e avós extremamente rígidos e católicos fervorosos. Da minha infância tenho várias lembranças de adormecer no colo da minha mãe no meio de novenas e missas. Ainda criança fui introduzida na religião testemunhas de jeová, onde meu irmão mais velho fazia parte. Então sim, por muito tempo você poderia me encontrar no domingo de manhã batendo na porta de estranhos e falando sobre a bíblia (um dos primeiros livros que li por inteiro).

Talvez por morar em uma cidade pequena meio interiorana, sempre em meio a grupos de pessoas mais velhas e religiosas não lembro de ter até a maioridade sequer uma referência de casal lésbico ou de uma única lésbica. Para falar a verdade acho que conheci a primeira mulher lésbica assumida quando já era adulta.

A parte engraçada, é que lembro de conhecer homens gays quando criança, ouvir piadinhas de outras pessoas sobre aquela “bichinha” que era o menino mais delicado e excluído da escola. Mas ninguém nunca, jamais falava sobre lésbicas. Hoje me pergunto, onde elas estavam?

E a resposta óbvia que me ocorre é: vivendo suas vidas do jeito que fosse mais fácil para todos à volta ignorarem sua existência. Tentando passar despercebidas, fingindo ser algo que não eram, porque o que elas eram de verdade a sociedade não podia aceitar.

Eu cresci ouvindo regra atrás de regra sobre o certo e sobre o errado. Eu cresci ouvindo minha mãe falar que eu precisava me casar com um homem da igreja, conseguir um emprego na malharia da cidade, economizar para comprar um terreno onde construiria minha casa. Eu cresci seguindo um padrão, decorando versículos da bíblia e quando não tinha ninguém olhando, sonhando como poderia ser minha vida longe daquilo tudo.

Mais de uma vez tentei me revoltar contra tudo que esperavam que eu fosse. Eu tive fases de me vestir só de preto, de ouvir só rock pesado, de sair sexta-feira a noite escondida para beber vodka barata na praça, de me rebelar na escola, em casa ou em qualquer outro lugar.

Tive namorados, sai de casa e voltei, pedi demissão em alguns empregos por outros melhores. Nessa época acabei me dando bem nesses empregos melhores e fui promovida, me mudei da cidadezinha onde me obrigavam a aprender o torto como direito, fui morar e trabalhar na grande Florianópolis. Mudei muito como pessoa, vivendo para e dependendo somente de mim. Eu escolhia tudo desde a hora da janta até a cor dos prendedores de roupas do varal.

Nessa fase amadureci muito como pessoa. Vários conceitos e ideias pré-estabelecidas se foram dando espaço para coisas novas e um jeito diferente de ver o mundo. Conheci pessoas muito boas e outras nem tanto. Mas eu não estava feliz ali e não entendia o porquê. Então, por decisão própria pedi desligamento da empresa que trabalhava, contratei um caminhão, consegui várias caixas na lojinha da esquina e resolvi voltar. Eu precisava voltar para o lugar onde por tanto tempo me senti prisioneira.

Voltei da capital do estado para dentro de um quartinho na casa da minha mãe, meus livros mal cabiam ali. Comecei a me cuidar e cuidar da minha saúde, pois desde que havia saído de Timbó havia negligenciado o fato de ser diabética e também aumentado muito de peso devido problemas de ansiedade que tinha na época. Reencontrei amigos dos quais sentia muita falta. Comecei a caminhar todas as noites com a minha mãe. Fiz várias coisas que tinha vontade como pintar o cabelo de azul, verde e rosa também. Fiz a minha primeira tatuagem. Adotei uma gatinha preta, minha companheira desde então, a Café!

Encontrei um novo emprego como vendedora, com ajuda da academia e uma alimentação saudável consegui controlar a diabetes e perder peso. De pouquinho em pouquinho tudo foi acontecendo. Um dia no meu trabalho conheci uma menina e me senti atraída por ela. Uma coisa engraçada sobre mim é que sempre me senti atraída fisicamente por mulheres, mas nunca pensei que isso queria dizer alguma coisa. Por exemplo, que talvez ficar com mulheres faria mais sentido para mim? Começamos a conversar e um dia rolou um beijo.

Não existiu um momento onde eu falei ou decidi: Oi, sou lésbica. Uma coisa levou a outra e quando eu me vi em um relacionamento sério com outra mulher, percebi que aquilo fazia muito mais sentido do que todos os relacionamentos que eu tinha vivido até então. A obviedade daquilo era absurda. Eu me sentia bem comigo mesma, me sentia eu. Minha mãe extremamente religiosa não gostou nada da ideia e as coisas ficaram bem complicadas em casa.

Minha mãe que sempre falava sobre casar com um homem da igreja, trabalhar em uma malharia 8 horas por dia, comprar um terreno parcelado e construir uma casa. Ela tinha criado três filhos de dois pais diferentes sozinha sem nenhuma pensão, trabalhado e comprado seu terreninho onde construiu a sua casa também sozinha. Porque ela achava tão importante a figura de um homem?

Percebi que era hora de partir, dessa vez na hora certa, dessa vez bem resolvida comigo. Me mudei para Blumenau onde tinha uma proposta de emprego à espera, onde um amigo achou um cantinho legal para eu e minha namorada morarmos e segui minha vida. Fiquei um tempo distanciada da minha mãe, ela fazia questão de fingir que não existia uma mulher na minha vida. Depois de algum tempo nós concordamos em discordar. Mais uma vez encontrei pessoas boas pelo caminho, aprendi muito e cresci mais um pouquinho como pessoa, acabei trocando de emprego para um melhor, adotei mais duas gatas e depois de um tempo meu relacionamento acabou.

E é aí que entra a Ana. Na época ela também havia saído de um relacionamento longo e a gente se encontrou nessas quebradas da vida, haha! Começamos a conversar e acho que depois do primeiro Oi dela eu já estava apaixonada. A nossa conexão foi imediata e a vontade de estar juntas sem tamanho! E hoje ela é o meu porto seguro, minha base e minha inspiração. Não consigo imaginar acordar sem ela do meu lado, não consigo imaginar fazer café só para uma xícara, não consigo imaginar um dia da minha vida sem aquele jeitinho que ela tem de me olhar enquanto faz um carinho no meu rosto ou mexe no meu cabelo.

Porque ela é a minha luz. E eu só tenho a agradecer por ter ela na minha vida.

E como ficou minha mãe? Teve muita discussão, briga, mágoa e revolta de ambas as partes, mas com o passar dos anos aos poucos tudo foi perdendo a intensidade. Quando paramos de bater na mesma tecla e seguimos nossa vida apenas como mãe filha tudo melhorou. Um dia ela me viu como qualquer outra pessoa trabalhando todos os dias, pagando minhas contas, levando presente no natal, pegando resfriado no inverno e entendeu que ser lésbica não me fazia diferente de ninguém e aos poucos nos reaproximamos.

Hoje em dia ela adora a Ana de paixão, quando a gente vai visita-la ela não quer deixar a gente ir embora e quando ela vem aqui em casa, chego do trabalho e encontro as duas vendo série bíblica na tv! É muito engraçado. Nunca perguntei para ela o que mudou, se ela me aceita ou aprova o meu relacionamento com a Ana, porque eu não preciso perguntar. Basta lembrar que quando a gente se fala no telefone na hora do tchau é sagrado: Beijo para vocês, fiquem com Deus.

E isso me basta para saber que não existe melhor sentimento de gratidão no mundo do que esse, de ser grata por me aceitar do jeitinho que sou.

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4 comentários sobre “O meu “me assumi”

  1. Bem amei esse poste de vcs, bem atualmente estou vivenciando essa guerra com minha mãe, não tem sido fácil, alias a sua história meio que se parece muito com minha, e isso meio que me da esperanças de um futuro melhor, acredito muito no poder do tempo, e sei esperar, do resto tenho sido muito feliz ao lado do meu amor, ela foi e tem sido minha luz, minha companheira, minha amiga e amante, sobretudo minha mulher. Obrigada por partilharem um pouco da trajetória de vida de vcs, isso de alguma maneira nos ajuda, ou mesmo soma em nosso conhecimento, bem vcs estão de parabéns! Sucesso, saúde e muito amor pra vcs, de sua seguidora fiel Rsrsrs… Helena. Bjos pra vcs.

    Curtido por 1 pessoa

    • Oi, Helena! Primeiramente, obrigada pelo carinho e apoio sempre! ❤ Sabemos como é difícil essa fase. Mas como toda fase um dia isso passa também, um dia sua mãe vai perceber que você é a mesma pessoa, vai cair a ficha que a filha dela continua ali e a única diferença no fato de ser lésbica, é que ela é mais feliz sendo quem é! 🙂 Não perca a fé. Um grande beijo da Elis e da Ana.

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      • Obrigada flor pela força! E obrigada pelo carinho da resposta, dias melhores virao eu creio nisso! Eu agradeco muito a Deus sempre pela pessoa maravilhosa que ele colocou em meu caminho, ao qual tem me dado todo o apoio e carinho, e também o seu amor, a Nazaré ou simplesmente NASA, tem sindo a companheira, eu a amo de mais por isso e pelo todo dela. Um dia quero falar melhor dela pra vcs e como foi que ela e eu nos conhecemos e já chegamos a dois anos juntas, muita historia boa assim como a de vocês duas, bem meus anjos Abraços para vcs duas, obrigada msm. Bjos.

        Helena Santos

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